26 de julho de 2010

Please, me dê um cigarro, que eu quero descer.


"Você não passa de uma tentativa". Ele disse. Não é mais do que uma tentativa fraca e preguiçosa. Ele me fuzilou com o olhar. E eu sei que foi isso que ele teria dito. "Nossa, cara, pra quê tudo isso!" Foi o que eu pensei. Mas também não disse. Eu não disse nada, nem ele.

Muito bem, mais um dia péssimo que passou. Céu perfeito, daqueles que atingem todos os níveis de coloração. Do azul marca d'água, para uma coisa tipo firmamento e no fim da tarde as cores esmiuçando-se entre as nuvens... e um vapor laranja. Mas tudo deu errado, tudo foi mal entendido. Não houve uma palavra sequer posta com convicção.
Ele não estava bem há semanas. Me convidava para jantar e deixava os garfos postos ao lado do prato. Quando a comida estava quase fria, ele comia. Que deprê, que busca pela deprê. Tem vezes que a gente faz tudo ao redor pra ficar ainda mais deprê. Chega em casa e fecha a persiana. Sintomático, a gente nem percebe, é só um estado de espírito. Mas ele estava assim, se cercando de um delírio amargo que só. E só. Se fechando num mundinho pequeno príncipe altista.
Eu estava notando, se não... Tudo que eu falava era uma agonia para os seus ouvidos. "Leveza é coisa de viado e modelo de passarela beibe". E sabe.... quando a gente tenta ser feliz? Agradável. Lê I-cing, toma chá de camomila no final do dia, acende incenso, fuma um antes de dormir. Nada, nada. Nenhuma manifestação, a não ser seu incrível desprezo pela humanidade.

Um dia terrível acontece. Já advertida pelo seu mau-humor, pisava em ovos.

Só que não dá pra ser sempre um oásis de tranquilidade. Tem horas que dá pra lembrar que ainda se tá dentro dos 20 e poucos anos de idade (quando se está) e soltar uma merda qualquer. E azar do goleiro. Azar de quem não merece a companhia de um oásis rock and roll.

Pois é, ele me odiou, quebrei seu pacto de infelicidade e lembrei que o rock estava vivo. Nossa! o rock está vivo, tudo é uma ilusão falsa e imunda e viva o bagaçerismo e a alegria demodê. "Domingo de manhã, sai pra caçar rã e quando de repente apareceu a tua irmã. Que sarro". Vou sair de preto e rosa e vou usar sapatos envernizados e ir pela noite, uhu. Vou sim amor, vou chegar amanhã cansada e com olheiras e vou descambar pro lado da ressaca - prova dolorosa de que se pode ser feliz numa noite apenas.

Meu discurso retumbou em seus ouvidos, mesmo eu não tendo dito palavra alguma. A única coisa que fiz foi ter tirado um batom da bolsa, depois ter acendido um cigarro e ter me deliciado com uma tragada. O filtro com marca de boca no cinzeiro. Foi demais pra ele. Eu sou uma tentativa.