4 de agosto de 2011

PACOTE FECHADO

Hoje eu encontrei um pacote de macarrão pela metade na despensa da cozinha. Ele estava fechado, muito bem fechado, como eu jamais o fecharia. Foi ele quem fechou o pacote deste jeito, eu sei. E lembrei-me de quando ele fez isso. Fechou com cuidado para que não fosse estragar depois. Ele sempre se preocupou em não deixar as coisas estragarem. Detestava desperdício.

Quando eu comprei esse macarrão foi para um jantar especial. Lembro que preparei com cogumelos e bacon, bem como ele gostava. Deixei que provasse o molho antes de servir na massa. Eu nunca deixava ele se aproximar enquanto eu estava cozinhando, detestava o seu olhar de aprovação em relação a minha mistura de temperos. Detestava qualquer olhar de aprovação que viesse dele.

Nesta noite ele estava muito animado, tão carinhoso. Eu lembro bem, ele me falou dos seus novos planos sobre o seu trabalho. Eu ouvi empolgada e pela primeira vez não julguei, não aconselhei, não emiti opinião. Não porque não as tivesse, eu simplesmente queria ouvi-lo. Estava apaixonada e isso me bastava. Ele estava lindo, sem nada de especial, se não a mesma barba por fazer, se não a mesma camiseta de ficar em casa, se não as mesmas músicas como trilha sonora de noite especial.

Antes desse jantar, antes desse macarrão, é como se não tivesse existido nenhum outro momento bom em nossa vida. Lembro de jantares em restaurantes nos finais de semana com os amigos. Lembro dos barzinhos, lembro dos amigos em casa, castanhas, vinhos, salgadinhos. Mas não me lembro de nada tão harmonioso quanto aquela noite, macarrão com cogumelos e bacon sem cebola. Ele detesta cebola. Ele também detesta discutir, detesta DR, detesta qualquer coisa que sugira desconforto, que lhe confronte, que lhe coloque em exposição. Eu tinha parado com isso. Já havia desistido de frases como “precisamos conversar” ou “estou cansada disto”. Tinha adotado uma postura branda, e não queria mais o papel de inquiridora da relação.

Eu lembro que depois do jantar tomamos uma garrafa de vinho a mais e conversamos na cozinha até ficar bêbados. A boca roxa, nos olhávamos como estranhos e tiramos nossas roupas como estranhos, nos tocamos como estranhos, gozamos como estranhos. E aquilo foi excitante, porque seguimos a noite inteira, mais e mais e mais. Mas, no outro dia quando acordamos no quarto iluminado pelo sol da janela escancarada, nos sentimos estranhos novamente e já não tinha mais o que fazer.

Na manhã seguinte ele fez questão de limpar os pratos que ainda estavam sobre a mesa. Recolheu o lixo e resolveu guardar o resto do macarrão que não usamos para o jantar. E sobrou esse pouco aqui, que agora está fechado, tão bem embalado que não tenho mais vontade de abrir... Porque me mata ver esse pacote fechado. Me mata pensar que vou prepará-lo para comer sozinha esta noite e que ele é uma testemunha do momento onde começamos a nos tornar estranhos. E no final das contas, me mata mesmo é saber que quando comprei este macarrão, jamais poderia pensar que ele duraria bem mais do que aquela noite especial, bem mais do que o meu próprio casamento. 



Em homenagem a uma grande amiga que conseguiu traduzir sua tristeza olhando a metade do pacote de macarrão que ele deixou na despensa. Espero que esse macarrão que sobrou seja feito com um novo amor!

2 de maio de 2011

Amar é...


Amar é deixar de comer o bife para dá-lo à pessoa amada.

Amar é, em hipótese alguma tocar Djavan no violão em uma roda de amigos e dedicar à pessoa amada.

Amar é, achar que a pessoa amada é a melhor pessoa do mundo.

Amar é, não rasgar as roupas da pessoa amada. Em hipótese alguma.

Amar é, caminhar quatro quilômetros com uma mochila nas costas sob o sol escaldante, para encontrar a pessoa amada em um acampamento hippie no Vale da Guarda do Embaú.

Amar é ficar com o coração apertado cada vez que se vai passar três dias longe da pessoa amada.

Amar é ter equilíbrio para analisar todas as situações. Salvo: flagrantes.

Amar é querer ser a melhor pessoa do mundo por causa de alguém.

Amar é rezar na igreja para a pessoa amada voltar.

Amar é resignar-se ao próprio amor.

Amar é, manter o romantismo e o erotismo. Mesmo que seja no outro dia de manhã... de ressaca.

Amar é, chorar silenciosamente no banho e depois não saber se é por tristeza ou felicidade - ou apenas por ter um motivo para chorar.

Amar é a despedida demorada... demorada ... demorada ...

Amar é saber compreender quando o outro está cheio de vida e você quer apenas ler um livro.

amar é...

1 de maio de 2011

Ato III - Aliterações de Francisca.

FRANCISCA - Quem sou eu Mariano? Quem sou eu pra lhe dizer alguma coisa...

Quando olho nos teus olhos Mariano, mesmo quando olho nos teus olhos que estão na minha memória, eu sei que não sou ninguém pra te dizer nada.
Eu sou uma vontade. E você sabe isso de mim, o que eu posso dizer, então, que você já não saiba? Nada.

Meu discurso com você é papo furado. É perda de tempo, estou nua diante seus olhos. Cada vez que eu os vejo, mesmo no meu pensamento Mariano, eu estou sempre sem roupas. Tipo aqueles sonhos horríveis sabe? A gente pelado por aí...

Como é que pode uma coisa destas? A gente inventa um domínio, um poder que alguém tem sobre a gente.

Porque, na verdade, Mariano não sabe que exerce esse poder sobre mim. Ele sequer sabe que eu penso nele, que vejo seus olhos com os olhos da minha cabeça. Ele sequer sabe que ele é um homem forte, que ele é corajoso, que ele é bom, muito bom. Mariano não sabe nem dele, coitado. Como vai saber que me domina, que me acalma, que me põe no meu devido lugar.

Eu inventei um Mariano só meu, um Mariano que vive dentro de mim, e que cada vez que eu durmo, dorme comigo, cada vez que eu acordo, acorda comigo, cada vez que eu durmo com outros homens, ele está adormecido, ele é um câncer benigno.
Não me corroi, mas também não sai dali, não vai embora. E me põe ciente de quem eu sou.

Eu talvez quisesse que Marino fosse realmente assim, esse olho dentro de mim, esse ser que me entende, que me percebe nas mínimas nuances do meu humor. Eu talvez quisesse que o Mariano de verdade fosse um ser rarefeito, que ele nunca tivesse existido em minha vida, que ele não fosse mais do que uma visão interna, um suspiro.

Quando eu conheci Mariano eu era uma coisinha me achando tão cheia de graça. Eu andava desvairada por aí. Ele se aproximou, ele se interessou pelo jeito livre que eu tinha. Eu não dava a mínima pra ele, eu estava louca por mim.
Eu humilhei Mariano, eu o desdenhei. Eu achava que ninguém poderia amar mais do que eu já tinha amado.
Ele era tão pequeno, tão frágil, tão doce. Com o tempo ele não desistiu de mim, ele cresceu na minha vida. E eu tirei o sangue dele. Eu deixei casca de ferida na sua pele, eu fui foda com ele.

Ele sobreviveu aos meus piores anos. Tanto que eu tinha pra dizer, tanto que eu queria dizer, tão pequena que eu era. Ele foi quietinho, do meu lado, tornando-se um pequeno homem.

Na medida em que me amou, sofreu. E aprendeu a me fazer sofrer depois. Me devolveu cada centímetro de sacanagem. Cada filha da putice que eu fiz com ele. Me cuspiu na cara todos os meus desvios. Aí, depois de um tempo eu vi que ele estava pronto. Havia se tornado esse olho que tudo me vê, que tudo me condena.

O amor com Mariano foi brando e companheiro. Tudo que a paixão nos tomou, o amor nos devolveu. A calma para pensar a vida apenas como uma sequência de dias que precisam ser vividos um a um, até o fim. Uma noção de liberdade, porque quando o amor nos tranqüilizou, nos tornamos livres um do outro. A urgência e o medo foram embora, e deram lugar a uma certeza de que já fazíamos parte um da vida do outro.

Mas acho que quando a gente ganha tanta certeza assim, a graça acaba. É infantil essa fala? É óbvia, é pensamento masoquista, típico de quem não sabe amar. De quem, na verdade pensa que ama, quando está apenas ganhando o jogo, porque é um jogador nato. Isso, é na real, na real, padrão de solidão..

Um dia Mariano foi embora da minha vida. Eu deixei a porta aberta, literalmente, e ele foi embora. Eu quis despertar as dúvidas, começar um novo jogo. Queria ver se eu tinha mesmo certeza que ele me amava, e vice-versa. Eu abri e depois fechei a porta de Mariano. E dele, eu não sei mais.

Não sei mesmo. Onde ele mora hoje. Como é a nova casa de Mariano, como é o seu novo quarto, sua nova vista. Ele escafedeu. E eu não sinto falta dele. Não sinto? Eu acho que não.

Talvez eu não sinta a falta dele, porque parece que ele ainda está aqui. Com esse olho enorme me cuidando. Um olho comprido, que sabe de mim.
Só que ele nem sonha isso. Se eu pegasse o telefone agora, e digamos, se eu soubesse o telefone dele agora, e ligasse, num ato de “foda-se tô bancando a desequilibrada mesmo” e quisesse saber se ele ainda me amasse eu acho que ele diria “não, acho que não”. Não tenho certeza se ele diria assim. Ele é de poucas palavras, eu acho que ele diria “o que houve?”. Responderia com uma pergunta pra ganhar tempo pra pensar e depois desviar o assunto.

Eu tanto quis que conquistei a dúvida do amor de Mariano.
E agora ele não é mais um homem doce, ele está amargurado, eu consegui fuder com Mariano de vez. No sentido de que ele nunca mais vai amar outra pessoa da forma doce como me amou. Mas ele pode amar de um jeito maduro, mais intenso.
...Eu acho que não odeio esse pensamento, dele amar outra pessoa... É estranho... Que estranho pensar assim...

É, me sinto um pouco culpada em relação a ele, porque eu acho que acreditei tanto que o que havia conquistado com ele era pra sempre, que quando eu não quis mais essa porra de “pra sempre”, senti uma baita culpa.
Porque eu fiz e aconteci com ele. Depois foi ele quem fudeu comigo, cagou na minha cabeça, aí, empatados, resolvemos hastear a bandeira branca do amor.
E aí... Eu desisti. Ou não. Talvez eu só tive mais coragem.

Não sei ao certo, só acho que eu quis pular fora, como se tivesse sonâmbula no meio da noite, e inconsciente, apenas estivesse buscando um copo d’água.

Eu aprendi a gritar comigo mesma, de não ter que precisar de Mariano para gritar. Ter Mariano dentro de mim não é um conforto, é algo que simplesmente está.  Talvez perdure, até quem sabe Mariano já estar completamente de olhos fechado para mim, e eu, olhando em outra direção.
Brega essa última frase, é eu acho brega na real. Gostaria de saber usar mais metáfora, metalinguagem. Mas eu não consigo.

24 de fevereiro de 2011

MARIANO E FRANCISCA


"Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer...”

 - Mariano, preciso falar com você.
- Oi?
- Eu preciso falar com você, pode tirar os fones e vir aqui?
- Oi?
- Dá pra sair da frente do vídeo game, eu preciso falar contigo!
- Tá.
...
- E então? O que foi?
- Eu preciso conversar...
- Sobre o vídeo game?
- Não, sobre a gente.
- Sobre o quê?
- A gente, eu preciso falar uma coisa...
- Já sei.
- Sabe?
- Sei. É sobre o vídeo game... Você não agüenta me ver aqui todos os dias jogando vídeo game, não é mesmo?
- Não.
- Não é isso?
- Não, quer dizer... É também, isso me incomoda... Porque eu fico tentando te chamar e você está sempre aí, com os fones, entretido nesse jogo...
- Ah, mas eu to no meu horário de folga, já conversamos sobre isso, que coisa...
- Não, tudo bem, eu sei... Eu não quero falar sobre isso...
- Então sobre o quê?
- Sobre isso, na verdade...
- O quê?... Eu disse, era sobre o vídeo game...
- Olha Mariano, não é sobre o vídeo game. Eu preciso falar que ... Eu estou te deixando...
...
- Como assim?
- Eu... Bem, eu quero me separar.
- De mim?
- Sim. De quem mais seria?
- Do vídeo game...
- Como você é engraçado. Estou dizendo que estou te deixando e você não está entendendo a gravidade da coisa.
- Claro que estou, mas não acredito.
- Não?
- Você deve estar com raiva, porque eu estou aqui, de novo, jogando vídeo game...
- Não! Eu estou te deixando porque você não me escuta.
- Mas eu estou te escutando.
- Caralho! Não está nada. Eu estou tentando dizer que não me importo mais com o vídeo game, com o tempo que você perde com esta bobagem, que não me importa mais com o que você perde o seu tempo. Eu to-te-deixando!
- Não importa?..
- ... Importa, mas não agora ...
- Porque você está fazendo isso? O que eu fiz desta vez?
- Nada, você não fez nada. Eu estou cansada.
- De mim?
- Não de você... Eu estou cansada de mim, de ser casada.
- Comigo?
- Não exatamente Mariano, eu não consigo mais falar a mesma língua com você.
- Que bobagem é esta agora? A gente está tão bem juntos...
- Não, não está.
- O que está faltando então?
- Eu... Não sei...
- Então, vai separar de mim porque não sabe... Como assim?
- Quer dizer, eu sei, algumas coisas eu sei. Eu estou infeliz, não sei mais o que dizer...
...
- É sério?
- Sim.
- Me fala então.
- Bem, eu estou pensando nisso faz tempo... Quer dizer, há algum tempo. Acho que a gente já está passado, sabe?
- Não sei.
- Nos tornamos um casal passado. Não estou mais me divertindo com o casamento...
- E você acha que casamento é diversão?
- Não. E é também. Acho que somos muito jovens pra não nos divertimos ainda, sabe... Eu sinto falta de você, sinto falta de alegria, de coisas novas...
- Mas você sabia que seria assim aqui, não sabia?
- Sim, que iríamos mudar de cidade e que você estaria fazendo um grande esforço para isso. Eu sei. Eu sei de tudo Mariano. E lamento porque mesmo sabendo eu continuo querendo te deixar.
...

- É claro, estou confusa, mas acho que preciso ficar sozinha, preciso me reencontrar...
- Já nos separamos outras vezes, pra nos reencontrarmos, e nos reencontramos, olha nós aqui juntos. Você vai separar de novo, pra quê?
- Não é isso. Acho que chegamos ao limite.
- Limite?
- É, acho que nos amamos, isto é certo. Cuidamos um do outro, nos importamos com as coisas um do outro. Mas não somos mais apaixonados um pelo outro.
- Eu sou apaixonado por você...
- É?
- Sou. Você não está mais apaixonada por mim,  tem outro, é isso?
- Não seja pragmático!
- Como assim? Ou está apaixonada por mim, ou está por outro!
- Mariano!
- É verdade. Não é?
- Não... Não é esse o motivo. Eu acho que preciso ficar sozinha, sinto que algo se quebrou. Quer dizer, eu acho que acabou mesmo, pelo menos por agora. Eu sinto muitas coisas...
- Que coisas?
- Deixa eu falar, eu explico...
...

- Eu sinto uma agonia dentro de mim quando estou contigo. No início era muita paixão, depois virou um amor, muito grande, muito forte. Eu morreria por ti. Agora mesmo, ainda morreria. Espera, deixa eu falar... Eu acho que você foi ficando exigente no amor que eu lhe dava, que eu lhe dou. Ficou mal acostumado com tanto amor. Eu fui doando, doando, e acho que sempre recebi muito pouco em troca. Fiquei rasa, sabe... Sinto que recebi quase nada. E não gosto de sentir isso Mariano. Porque acho que amor não se cobra, mas amor, com amor se paga, não é mesmo?.. Então, eu tinha de estar sempre pronta pra te amar, te cuidar, fazer você feliz. Em tudo. Porque o teu mundo sempre pareceu mais importante do que o meu. As tuas urgências eram mais importantes que as minhas. Não quero ser injusta, mas comecei a achar (e já faz tempo) que você nunca me viu de verdade. Você via o seu próprio desejo de me amar, Mariano.
- Você acha isso mesmo?
- Acho, deixa eu falar mais...
...

- Essa  agonia foi crescendo, todos os dias. Então eu comecei a cuidar de você, das suas coisas, do seu trabalho (do que eu poderia cuidar), e tudo bem, eu gostava. Mas agora eu não sei explicar, não gosto mais. Estou cansada. No outro dia você saiu cedo e procurou sua blusa branca no armário. Ela não estava lá, você ficou bravo comigo Mariano. Você me maltratou por causa de uma porra de uma blusa branca que não estava no armário. Eu não sou sua empregada, eu sou sua mulher. Eu deveria ser sua querida, mais que querida mulher. Mas você briga comigo por causa de uma blusa, por causa das suas coisas que eu sempre guardo nos mesmos lugares há doze anos...
- Mas eu já pedi pra você não fazer isso. Eu me acho com as minhas coisas do jeito que eu as deixo, você sempre muda tudo...
- Não, eu sempre arrumo tudo...
- Mas eu não me acho depois...
- Não é só isso Mariano, é sobre o jeito como você fala comigo...
- Que jeito?
- Assim!
- E você acha que você é diferente comigo?
- Não, eu não acho.
- Então, não vem pra cima de mim com esse papo...
- Eu não estou indo pra cima de você com papo nenhum Mariano. Eu só estou tentando dizer que estou te deixando.
...

- Você não está interessado em ouvir meus motivos, não é mesmo?
- Estou.
- Bom, eu pensei muito, durante esses meses, principalmente depois que nos mudamos para cá. Eu fiquei muito sozinha (tudo bem, eu já sabia que isso ia acontecer), mas eu não sabia que isso ia ser tão difícil, que ia ser estranho. Porque nesses dias que eu fiquei tão sozinha por aqui, acabei me conectando comigo de novo. Eu acabei me encontrando, de um jeito que eu gostava de ser.
- Solteira?
- Não Mariano, eu mesma.
- Então você não é você mesma quando está comigo?
- Não, quer dizer, fui, era... Eu acho. Eu sempre te amei, você sabe disso. E me dediquei a esse amor, a essa história. Só que por me dedicar tanto, eu acho que me desconectei de mim mesma... Tipo, eu perdi o meu fio da meada, saca?
- Não. Eu sou eu mesmo.
- Que bom! Que bom que você pensa assim. Só que o meu lado está pesando sabe, eu não sei bem o que dizer, só sei que esse tempo me ajudou a me ver, ver as coisas que eu quero pra minha vida, que eu quero fazer... Quero fazer minha história, quero ter filhos...
- Você acha que vai ter filhos solteira?
- Não, eu jamais faria produção independente.
- Então você vai ter filhos com alguém?
- Não! Quer dizer, sim, um dia, mas não agora. Eu digo “quero ter filhos”, porque é um plano que quero fazer. E você não fez esse plano comigo. Não de verdade Mariano. Você nunca me disse qual o nome que você prefere...
- Mas o que importa isso?
- Nada, agora. Mas importava, eu queria saber o que você preferia, eu queria sentir que você estava fazendo planos comigo...
- Você está sempre falando de planos. Então faça os planos. Eu topo! Quer ter um filho, vamos ter um filho. Eu gozo dentro!
- Como você é grosseiro Mariano!
- E decerto você é uma flor?
...

- Desculpa, pára de chorar, vamos conversar...
- Não quero mais falar nada. Eu vou embora...
- Vai embora pra onde? Não faz assim...
- Não sei, quer dizer, eu sei, vou pra casa de uma amiga...
- Francisca. Eu te amo!
- Eu também te amo, mas não dá mais.
- Você tem certeza?
- Não, mas mesmo assim, eu acho que não dá mais.
- Por quê?
- Eu já disse, não consigo mais ser eu mesma contigo. Preciso me reencontrar. Estou confusa...
- O que eu posso fazer pra você pensar melhor?
- Nada, agora nada Eu preciso pensar Mariano, sozinha. Eu não sei o que está acontecendo, mas eu não quero mais ter um marido. Não quero ter que cuidar da casa, da suas roupas, de fazer comida... Eu só quero trabalhar...
- Mas você sempre trabalhou estando comigo, eu fico quietinho no meu quartinho...
- Não é isso. Eu quero ter liberdade.
- Eu não lhe dou liberdade?
- Me dá, mas eu não me dou.
- Aha! Então, a culpa é sua, não minha...
- Não tem culpa nenhuma...
- Não culpa, culpa, mas o problema é seu. Você fica pensando sobre o que eu penso sobre as coisas e aí fica pirando... Tipo, eu não peço para fazer nada por mim, mas você acha que eu quero, então você faz. Eu sei, é para me agradar, mas eu não peço.
- Eu não quero mais ter de ouvir isso... Não concordo.
- E como é então?
- Eu poderia dizer que não te amo mais e tudo seria mais fácil. Mas não vou dizer, porque ainda te amo. Só que não consigo mais com esse teu jeito. De quem está sempre certo, de quem raciocina, de quem é objetivo sobre a vida. Eu não sou. Eu sou poesia.
- Tá bom...
- Era disso que eu estava sentindo falta Mariano. Da minha poesia!
- Você quer falar sério ou não?
- Só que eu estou falando sério. Para eu conseguir chegar em algum lugar na vida, eu preciso de poesia, eu preciso de imaginação, eu preciso de paixão... Coisa que a gente não tem mais. Coisa que você esqueceu, aliás, nunca lembrou. Quando foi que você fez uma loucura por mim Mariano?
- Quando? Quer que eu te diga? Fiz muitas! Ou você não lembra daquele ano novo?
...
- Lembro, claro, desculpa.
- É... Vem dizer isso pra mim...
- Tudo bem, mas isso é coisa antiga, quando a gente se conheceu. Mas eu digo agora, digo nesses últimos anos. Você não me elogia, você não elogia nem minha comida se eu não peço... Eu acho isso o fim da picada...
- Isso é egocentrismo!
- Não é não, é desejo de ser amada. Primeiro, você está sempre cansado. Porque trabalha muito, viaja muito. Quando chega em casa tudo é voltado pra você. Se vamos ao cinema, tem que ser um filme que você goste, e olhe lá. Teatro, nem pensar. Se for um concerto, tem que ser de algum grupo que você goste muito... Não gosta de noite. Mas gosta de ir no boteco. Enche a cara, conversa com os amigos. Legal Mariano, eu acho legal o seu jeito de ser. E aí quando chega em casa, cai na cama, dormindo com a barriga cheia de cerveja. E eu, chupando o dedo.
...

- Sabe quantas vezes eu coloquei uma calçinha nova pra chamar a sua atenção? Várias. E sabe o que você faz. Deu um tapinha na minha bunda Mariano... Não é isso que eu quero. E sei que você faz isso por pura preguiça. Porque você adquiriu preguiça de mim.
- Preguiça?
- Eu acho. Porque você é um homem jovem, bonito, cheio de amor pra dar... Mas não me dá Marino, você não me dá...
- Eu não te dou amor suficiente?
- Não.
- Você está sempre reclamando, exigindo de mim, já notou isso?
...
- É, sempre foi assim. Quem está cansado sou eu. Eu tenho que ser quem pra te dar amor agora? Eu sou assim, eu sou eu mesmo. Sempre fui. Não tenho problemas de personalidade. Nunca fingi ser uma coisa que não sou. Mas você sempre quis mais de mim, não é mesmo? Eu nunca fui o suficiente pra você. Quer o quê? Um advogado de terno e gravata? Eu nunca vou ser... Eu sei o porquê disso agora... Você está cansada de mim, de me ver em casa (quando eu estou), jogado, descansando. Mas eu já lhe disse, eu sou assim, meu trabalho se processa de outra maneira. Eu preciso ouvir meu som, fazer minhas coisas, ficar na minha. Mas você nunca respeitou isso em mim. Sempre fica inventando coisas para eu fazer, como se eu não estivesse fazendo nada. Porque ouvir som é trabalho pra mim, tá entendendo. Eu sou um artista. Droga! Você acha que eu sou um vagabundo, não acha? Mas eu não sou! Eu ralo muito pra pagar essa bosta de aluguel, pra pagar as contas dessa casa, e você não valoriza isso...
- Eu valorizo sim, não estou falando disto... Não é sobre a sua profissão. Eu já entendi isso há muito tempo. Eu reclamo da gente. Da gente como casal. Eu queria...
- Você está sempre querendo alguma coisa...
- É disso que o mundo é feito sabia? Dos desejos, as pessoas querem coisas, por isso elas mudam...
- E eu não quero nada? Viu, está dizendo que eu não quero nada, que eu não me importo com nada...
-Eu não disse isso, eu disse que eu quero uma coisa diferente.
- Diferente! Quer outro namorado, por acaso?
- Talvez, talvez eu queira, mas não é isso que está em jogo aqui. Devemos falar sobre nós, sobre nossa separação.
...
- É isso mesmo que você quer?
- É.
- Tudo bem, o que quer que eu faça, vá embora?
- Não. Eu vou.
- Pra quê? Você é quem passa mais parte do tempo aqui, eu estou sempre fora. É mais justo que eu vá.
- Como você achar melhor. Eu pensei em alternativas. Pensei em ir para casa de uma amiga por uns tempos, você chama o Geraldo para ficar com você aqui, já que ele está sem casa também, e depois a gente vê, sei lá... Pelo menos no começo...
- Não faz isso Francisca! Você não pode estar falando sério?

... (Suspiro)

- Estou Mariano. É muito difícil olhar pra você agora e dizer isso, mas eu estou. Assim que você sair por essa porta, ou eu sair, eu sei que vou sofrer muito. Porque eu te amo mais do que você pode imaginar. E acho que o amor nunca acaba. Não tem como acabar. Não um amor como esse. Eu te conheço, eu te sinto, eu me sinto em ti. É difícil que isso termine, assim... Acho que você vai sempre ser meu amorzinho, meu querido... Vou morrer de saudade, vou querer voltar, te ligar, saber se está bem, mas eu preciso fazer isso. Porque não é justo matar o amor desse jeito que a gente tá matando. Sufocando com o cotidiano, com o dia tedioso, com a falta de vontade, com a falta de carinho. Eu só queria que tudo voltasse como antes, mas não volta. Depois que me caiu a ficha, nunca mais voltou. E agora eu tenho que fazer isso. Por mais que me doa o coração. Mas é o certo a fazer.
- O certo é a gente ficar bem. Não foi pra isso que a gente veio pra cá?
...
- Foi... Ah, meu Deus, não posso ver você chorar Mariano. Seus olhos ficam tão claros, tão lindos... Por favor, não chore. Vem aqui, me abraça. Você não pode chorar. Quem chora aqui sou eu...
- Como que eu não vou chorar Francisca, você está me deixando!
- Não.
 ...

- Eu já sabia, lá no fundo, eu sabia que você ia me deixar um dia. Que você não ia agüentar essa vida por muito tempo. Grana curta, contada, viagem o tempo todo, meus amigos e meu jeito... Você com todos seus sonhos, todas as suas vontade, eu achava que dava pra te fazer feliz assim, mas não dá, não é?
- Não é isso...
- Tudo bem Francisca, eu já sabia que isso ia acontecer um dia. Eu não sou mesmo o cara certo.
- Não existe isso de cara certo. Você é o cara certo do jeito que você é, eu é que preciso me achar...
- Pára com isso. Chega de se achar... Se eu fosse o cara certo, você não teria duvidas sobre...
- Não é assim!
- E como você sabe? Que não é assim? Como você pode saber?
- Não sei mesmo... Eu só penso diferente... Eu... não sei. Acho melhor dar uma volta, conversamos depois.
...
- Fecha a porta quando sair.
- Ok. Você vai ficar em casa?
- Vou.
- Quer alguma coisa da rua?
- Não.
- Tudo bem, eu vou voltar, posso passar na padaria se você quiser.
- Eu já disse que não. Se eu quiser, eu mesmo pego.
- Ok... Tchau!
- Tchau!

18 de fevereiro de 2011

CASA VAZIA

"Dragonfly, fly by my window"

Voltar para casa com a certeza de que deveria se mudar. Era isso que ela jamais poderia ter imaginado. E imaginou. Logo que entrou, reconheceu o ambiente, a sala, a mobília, a cozinha, as roupas no closet improvisado. Era o seu lugar, sem ela.
Um amigo havia dito naquela sexta-feira “todos sofrem no final. Inevitável o sofrimento, boneca”. E era verdade. Aquelas palavras penetraram profundamente, não como reveladoras, apenas como palavras certas. Ela calou, sorriu. Um gole de vinho. Um rompimento sempre supõe algo doloroso. Ela só queria poder fazer o movimento sem precisar espalhar essa dor ao mundo. Que fosse algo sutil, como ela mesma se pressupunha. Queria encontrar uma forma para ajeitar tudo, para que esse movimento não espalhasse muita poeira pelo ar, fosse leve e preciso.

Quando entrou em casa já não era mais ela mesma quem entrava. Era um desejo contrário à casa, contrário a anos de construção. E aí já começava a dor. De certa forma, teria de ser. Desconstruir o lar. Seu casamento, suas coisinhas, as coisinhas da vida conjunta. E as coisas grandes também. O que dava alento era acreditar que aquela desconstrução não era simplesmente acabar com tudo que já havia sido feito. As coisas boas sempre ficam, não é mesmo? É mesmo. Isso ela sabia que era algo imensurável, era a providência divina do casamento. Os anos alcançados juntos.

O movimento da transformação pode acontecer de diversas formas. Muitas pessoas o processam imediatamente, são tocadas por um clic mágico, um fato, uma visão, qualquer coisa que as façam arrumar as malas, ou esquecê-las no armário. Para outras, é algo que vai se desenhando, ganhando forma, corpo, dimensão de transformação. E o que importa, na verdade, é como isso acontece. Ela acreditava nisso. Que o como das atitudes está diretamente ligado ao caráter. E que qualquer transformação que impulsionasse um ato impensado, tomado como decidido de uma hora para outra, fosse leviano e fugaz. Porque na vida tudo é planejado. O planejamento vem da natureza. E o movimento natural de tudo é seqüencial. De tudo que pudesse ser naturalmente processado por ela, do seu prisma de ver o mundo. Porque já havia tentado explorar coisas mais dinâmicas, a física quântica, por exemplo, e considerar que os movimentos poderiam não ser seqüenciais, lineares. Tempo e espaço em dimensões inimagináveis. Mas foi difícil. Pois ela era do tipo de gente que identificava tudo a partir do mesmo processo gradual e contínuo que a natureza faz. A semente, germinação, broto, planta, crescendo. Folhas que caem e morrem. Um ciclo. A água que corre da nascente para a dormente. Era assim que sentia. Por isso a transformação deveria ser lenta, processada com leveza e exatidão. Deveria sentir que tudo estava sendo natural. E natural era bom, era confortável, era correto.

Pensou por dois segundos que seria custoso demais separar livros, discos, objetos, gravuras. Mas logo ocorreu que isso não importava. Nada. Precisava sim da escrivaninha no canto do quarto, da panela de ferro na cozinha, do som (isso poderia gerar impasses) e de pequenas coisas que a traduzisse. Só isso. O mais difícil mesmo seria começar. Dizer, explicar a sua decisão. Falar porque estava indo embora.
Não é uma questão pessoal. Não é uma questão afetiva. Não é sexual. É... Natural. Precisava manter a calma, a serenidade. Não deixar que culpa entrasse nessa história. Porque onde há amor, não pode haver culpa. Era o conforto que buscava. E começou a considerar que isso ia ser melhor pra ele também. Depois de alguns anos juntos, parecia que o encantamento estava apagado, escoado, desfocado. Podia ser um indício de que as coisas não deveriam continuar. Ou poderia ser apenas a evolução natural do casamento. Sim, poderia. Disserto era. Mas o fato é que ela sentia que dava para prolongar o estado de encantamento por mais tempo na vida. Por que não? Ele também precisava. Ele era um artista. Precisava de matéria prima. Ela o via apagado. Vislumbrou na possibilidade da mudança, que ele podia ser feliz também. É claro que podia! Porque acreditava mesmo que onde há amor, as coisas dão certo. Um lado Polyana de ser.

O fato de estar apaixonada por outro homem não era o foco dessa mudança. De maneira nenhuma, por isso ela não revelou nada. Sabia que isso era uma coisa sua. Que nascera – fato que odiava admitir- da mudança de ares, da mudança de cidade. Talvez tivesse começado um ano antes, quando chegara ao Village pela primeira vez. Cada esquina a transformou, sem dúvidas. A incursão pelo R&B, pelo jazz, pela possibilidade de ser uma outra que vivia também dentro dela. Uma parte que precisava ir um pouco mais adiante. Que queria escrever, que queria viajar, que queria conhecer tudo. De arte, literatura, cinema, de pessoas, gastronomia, vinhos, de desprazeres também. Ela tentava isso com ele. Sempre tentou. E a troca foi boa, por um tempo. Sentia-se esgotada. Na verdade era duro admitir isso. Aí veio casa, bairro, cidade, amigos, tudo novo. E então já não conseguiu evitar o pensamento que seria muito bom ter outra vida. Ser ela mesma tudo de novo.
Parecia meio óbvio. Era, na verdade. Ela começou aos poucos. Cursos, trabalho. Os textos estavam explodindo. Inspiração pelo novo. Que natural isso, não? Sim, era assim que a vida se mostrava. No movimento exato do ciclo.
A paixão nova não estava nos planos. Aliás, quando é paixão mesmo nunca está. Traz a ansiedade, a dúvida, à incerteza. Mas é poderosa. Um estopim para a transformação. Desde que o conheceu as coisas foram ficando cada vez mais claras. Ele ajudou a mostrar uma nova opção. A sua presença tornou possível. Era isso que significava estar apaixonada naquele momento. Sabia do fundo do coração, que uma paixão poderia sempre ir além, ser bem mais. Mas, também não a admiraria se não fosse. Porque agora ela era ela, ampla e infinita dentro de si. Isso era encorajador, porque a paixão também encoraja. Era ela querendo ser, vivendo e fazendo para ser.
Queria que ele (esse novo ele em sua vida) não sentisse tudo isso que estava acontecendo. Porque ele fazia parte dos acontecimentos, então deveria ser natural.  Não contaria seus planos, ia apenas guardar o momento novo para compartilhar mais além, mas bem perto.

Então estava decidido. A casa já não era ela. E ela já era livre. Livre para tomar um passo adiante, para arrumar as malas. Para explicar o que estava acontecendo. Estava livre e certa. Certa de que iria trabalhar com a dor. Iria ter que enfrentar muitos monstros ainda. Mas certa.
Primeiro sentou no sofá, respirou fundo, soltou o ar devagar. Observou cada detalhe de tudo. Não queria melancolia, queria certeza. Depois levantou, andou pela casa. Pensou os melhores pensamentos do mundo, para que ficasse ali um pouco dela. Para que ficasse só o melhor que ela poderia deixar. É claro, chorou. Um pouco, bonito. E esperou. O dia que ele voltasse pra casa, e ela iria deixar a casa vazia. Não dela, mas do vulto do desejo que ela havia se tornado dentro da casa. 

3 de fevereiro de 2011

Pepita quer amigos.

Definitivamente os cachorros andam mesmo ficando parecidos com seus donos, principalmente cães urbanos, que vivem restritos em seus mundinhos de apartamentos ou ao perímetro de suas coleiras. Hoje no tradicional passeio com Pepita pelas ruas do nosso bairro, o simpático Pinheiros, em São Paulo, não tivemos a sorte do convívio. Nossos vizinhos, cães e humanos, não estavam para papo.


Como de costume, é eu pegar na coleira que Pepita já começa a pular num frenesi daqueles. E às vezes, logo de saída, essa demasiada alegria de Pepis assusta pedestres desprevenidos, porque ela cruza o portão do prédio, que dá direto no tumulto da Teodoro Sampaio, no maior estilo suricata ensandecida, se equilibrando nas patas traseiras. Já vi velhinhas tropeçarem, crianças soluçarem e até mesmo adolescentes viajandões se ligarem, tudo por conta do momento em que Pepita parte para o seu passeio diário. Me causa constrangimentos, claro, mas afinal, é a pura expressão da alegria de viver de um cachorro de apartamento.

Uma quadra depois, ela já está apta à interação, já passou o êxtase da largada e começa então a farejar os rastros dos cães vizinhos que circulam pelas mesmas ruas. Já tem até uma turminha formada. O Traquéias, um pequeno peludinho, que cada vez que vê Pepita começa a tossir. A dona, uma garota super tímida, um dia me confessou, que quando ele se excita sua traquéia coça, então ele tosse feito um doido. Traquéias é o apelido carinhoso que eu e Pepita demos ao rapaz. Tem a Mel, uma Golden linda, que anda sem coleira, super obediente ao seu dono, o Beleza. A Mel é a ídala de Pepita, cada vez que as duas se encontram, minha pequena vira-latas baixa a guarda e a imitia em tudo. Ainda bem que ela não entende a sua própria natureza, nunca vai conseguir correr com o porte de Mel, seu estilo é mais pra coelho correndo no pasto, pobrezinha. Na rua debaixo da minha, tem um vira-lata sarnentinho por quem Pepis tem a maior queda. Já disse pra ela, nada de cão sem dono, logo vai querer te seguir, vai ficar em frente ao portão mendingando comida e pedindo pra subir. Não temos condições Pepita, nem pensar.

Mas hoje, quando saímos não encontramos nenhum dos amigos. Subimos mais algumas quadras, até a Capote Valente, onde rolou alguns encontros com novos cães. E aí é que a coisa ficou estranha. O que aconteceu com o velho cheira-rabo canino hein? A Pepita tentou uma cheiradinha em pelo menos três cachorros, e levou um bom chega-pra-lá. E os donos na mesma linha. Eu sorridente, tipo, vamos interagir nossos cães. Nada. O primeiro, com um Schneuzer puro, nem me olhou, como se eu e minha vira-lata fôssemos invisíveis. Olhei pra ela, tipo, ah, não esquenta, e seguimos. Mais adiante, uma cadelinha de madame, levada para o passeio pela empregada. A reciprocidade também não rolou, nem da poodle, nem da mulher, que me olhou de cara e disse “melhor não chegar perto, Sofia não gosta de cães”. Que mundo é esse Meu Pai? Sofia gosta de bichinhos de pelúcia, tão asseados quanto ela, que usava sapatilhas de balé. Sofia esnobou total. Na volta, encontramos um senhorzinho gordinho, subindo a lomba da Artur de Azevedo com certa dificuldade. Ele estava com um linguiçinha meio vira-lata também. Ah, esse vai rolar, pensamos. Que nada. Pepis chegou bem devagar, na tentativa de uma cafungadinha no traseiro. O homem sentiu a presença antes do cão, e puxou o coitado pela coleira. “Ele é alérgico!”. Alérgico? “A pulgas, se alguma pulga picar ele, ele se coça pra sempre.” Bem, Pepis é pulguenta então? Delicadeza, gentileza, um pouco de cavalheirismo? Não existe mais. Puxei minha pequena e segui reto. Ela ainda ficou olhando pra trás, o salsicha todo sôfrego, vencendo seu percurso em suas micro-pernas, e o gordinho na maior banca suando bicas na subida da lomba. Ah pára!!!

Não que o mundo tenha sempre que ser sorridente para cão e dona sem pedigree, mas um pouco de compaixão, de vizinhança, de um bom papo de esquina, é pedir muito? A intimidade dos estranhos, que trocam confidências de seus cães, aquela coisa. Parece que a turma de cima não estava interessada nisso. Me parece que essa turma já está embebida demais na solidão de suas vidas. Parece que essa turma é daquelas que já tem perfil dos cães no facebook e os amigos, são apenas virtuais. Nada de instinto animal, nada de pulgas, nada de interação, nada de farejar a bunda alheia por aí.

27 de janeiro de 2011

Joinha está no fundo?

Aonde é o fundo do fundo do poço? O que é estar no fundo do poço? Sentir a água batendo na soleira da bunda, ou estar por um nariz, a ponto de se afogar no fundo? O poço de cada um é um mistério. Acho que isso é uma sentença.

O que para muitos pode ser o pior poço do mundo, pra outros pode nem ser a metade da “tresheira” que é essa vida.
Quando Joinha chegou na cidade nova, mara (de maravilhosa) tudo parecia lindo. Experiências mil, portas que se abriam, janelas escancaradas para um nova vida. Lindo, lindo, lindo. Conseguiu apartamento, conseguiu novos amigos, conseguiu até um novo penteado, mas não conseguiu o novo emprego. Ai ai ai Joinha...
Como quase todos que buscam, Joinha resolveu investir nela mesma. Escrever, criar um blog, sair por aí respirando a literatura, ai ai ai de again... Encontrar o seu estilo, sua coragem, ela mesma e etecétera. E é claro que isso foi demais, foi novamente mara. Chegou bonita, fora do negativo, super azul, super-super, como diziam os amigos da nata. A cidade foi crescendo aos seus olhos, foi lhe entusiasmando, foi lhe apaixonando, foi lhe levando todos os trocados. E aí é que Joinha começou a se estrepar. Estava só indo no fluxo, e aí a gente já viu esse filme. É o fluxo vermelho que toma conta da conta bancaria, e que invade tudo, desde o cheque-especial até cartões os de crédito, um fluxo do inferno que acaba com a vida de muita gente. Coisa séria isso. Tem gente que se arrepia só de ouvir essa junção de palavras, que tira o sono e dignidade: juros sobre juros.

Sentiu o duro golpe do cair em si, cair do cavalo, parar de frescura (como diziam na cidade de onde vinha). Aí, a linda cidade nova sumiu no cinza e no amarelo desbotado dos prédios antigos, na falta de ar que oprime qualquer um que tenha cultivado um saldo negativo com alguns cinco dígitos. Ela lembrou que algumas pessoas (como ela) nunca podem desligar o pisca-alerta, pois se perdem facilmente na ilusão de que a vida vai ser justa, e vai recompensar aqueles que por ela fazem o de melhor. Ihhh, que pena Joinha, levedo engano, a vida está cheia de urgências, e não há tempo de recompensas, não há tempo de justiças. É uma guerra louca pra se achar e se manter no lindo canteiro ao sol da Paulista, e isso é a real desta e de qualquer cidade.

Então, eis que surge o fundo do poço.

Maldito, ou bendito seja, depende do ponto de vista do cidadão que lá estiver. Maldito para quem é um pessimista, que não consegue enxergar que na verdade, quando se está no fundo (mas bem no fundo), não se pode ir mais além, e se for, o tombo já está mesmo amortecido. E bendito, para quem consegue enxergar nessas horas (e nisso Joinha foi boa) que o fundo do poço é um lugar, na verdade, calmo, porque geralmente é muito pessoal, não se compartilha com ninguém, e de lugares calmos, se podem tirar algumas reflexões. Refletir é bom, é necessário. E o fundo do poço então passa a ser uma dádiva. Um momento para por em prática o que de melhor conseguiria dela mesma. Ou era pensar assim, ou a morte por depressão. Agarrada no seu instinto de sobrevivência, Joinha preferiu ver o fundo do poço como apenas um dos lugares a se estar, um lugar de trânsito e levantou a cabeça, pra não ser invadida pela água, que no seu caso, já estava no pescoço.

E essa é a história de Joinha, como a de tantos por aí, que um dia acordam sufocados, com a bigorna da vida pendendo sobre os ombros. É um pouco da história de muitos brasileiros, que como ela, sonham acordados, dormindo ou embriagados. Que como Joinha, não se deixam abalar pelo poço, pela lama, pelo fundo. E afinal, onde mesmo fica o fundo?